terça-feira, 6 de outubro de 2009

Não Se Explique...

Não me é possível escrever como se nada tivesse acontecido. Aconteceu e estou machucado. As pancadas doem mais quando se é velho. Mas o tempo fez o seu trabalho. A raiva se foi. Meus pensamentos voltaram à sua tranqüilidade Tao. Lembrei-me de um ditado antigo que dizia que os remédios amargos são os que curam. Naqueles tempos a cura das perturbações digestivas se fazia com um purgante. Eram horríveis de se tomar. Mas o seu resultado era uma purificação total do intestino. Depois do purgante e seus efeitos a pessoa ficava leve. Pensei: quem sabe isso pode acontecer comigo? Será possível que o disseram contra a minha literatura e contra mim, como pessoa, possa ser um purgante com efeitos purificadores? Murilo Mendes, escritor mineiro, dizia que a leitura é um ritual antropofágico: o que se lê é o sangue e a carne de quem escreveu. Pensei que talvez seria sábio devorar antropofagicamente a comida amarga e apimentada que me estava sendo servida para que ela faça o seu serviço purificador dentro de mim.

Nietzsche, esse eu vou repetir sempre, digam o que disserem. Sua escrita é música. No Ecce Homo ele escreveu isso: “Em última instância, ninguém consegue tirar das coisas, incluindo os livros, mais do que aquilo que ele já conhece. Pois aquilo a que alguém não chegou por meio da experiência, para isso ele não terá ouvidos”. Traduzindo: o que lemos nos livros somos nós mesmos. Somos a nossa eterna literatura. Livros são espelhos em que nos vemos refletidos. Isso explica uma curiosa experiência: começamos a ler um livro e o achamos tolo e chato. Nós o abandonamos depois das primeiras 20 páginas. Passados muitos anos voltamos a ele e o achamos maravilhoso. O que aconteceu? O livro não mudou. Mudaram-se os olhos, mudou a experiência de quem lê. Faz uns tempos fui à procura de um livro que me havia encantado quando adolescente. Depois de algumas páginas de leitura deixei-o de lado para que a memória do meu encantamento adolescente não fosse estragada. O meu gosto havia mudado com o passar dos anos...

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